“MURA”

“MURA”

Jorge Ary Ferreira.  

Um momento de grande dificuldade para os jovens, principalmente os que nasciam no interior da nossa Amazônia ha alguns anos atrás, era enfrentar a primeira namorada.

Há poucos dias conversando com meu amigo Antônio Imperial, me confessou o quanto era travado, me disse que cresceu na região do Pauapixuna e durante a infância pouco veio à cidade, conheceu sua primeira bola, daquelas de sarnambi já com uns treze anos, nesse mesmo dia pegou uma surra da mãe, - quem disse que o moleque quis almoçar? Foi preciso sua mãe sair com o galho de cuieira por dois dias seguidos, para o curumim largar a bendita bola “zarolha”, mas para ele, um presente muito mais importante que o almoço que em sua casa, tinha todos os dias e com fartura. Já com uns 16 anos, seu pai chegou da cidade com um pneu numero cinco, como eram conhecidas as bolas de couro da época, haja cipó novamente para largar a bola, para sua sorte, pensando hoje logicamente, no segundo dia sua relíquia se acabou em um espinho de marajazeiro, e foi o jeito encher de capim seco, e assim mesmo o couro caía, e quando não servia mais com capim, serviu por um bom tempo como chapéu, era só acordar, botava aquele couro velho na cabeça e passava o dia fazendo as tarefas de casa.

Porem, o dia mais triste estava por vir, anunciaram na comunidade um baile dançante, sua mãe lhe preparou uma camisa nova, deu um trato no cabelo e partiu com seus lindos olhos azuis a caça de sua primeira amada, pois já estava cansado das ovelhas e bezerras que lhe quebravam o galho. Chegando a festa logo notou a presença de uma moça diferente, muito bonita, volta e meia olhando pra ele, logo respirou fundo e tirou a donzela para uma dança, foi amor à primeira vista, a dama cheirava um cheiro inédito para seu inexperiente olfato, e disse que tinha vindo da cidade de Santarém especialmente para aquela festa, no fim da segunda música, convidou-a para refrescarem o corpo no terreiro, uma vez que a sede era pequena e o calor daquele outubro estava brabo, saíram, e logo saiu o primeiro beijo, testemunhado pela lua e a sombra de um grande apuizeiro, passou ate a vontade de dançar, me confessou o garanhão, que nunca viu o tempo passar tão rápido na vida como naquela noite maravilhosa, assim que acabou a festa a moça foi descansar no barco como de costume, e ele para sua casa, a cem metros da sede, quem disse que conseguia dormir pensando em sua amada que poderia perfeitamente estar ali ao seu lado, porem ele não a convidara porque achava que sua princesa não se agradaria do cheiro de sua rede um pouco “sentida”, já clareando o dia deu uma cochilada, foi quando se espantou foi com o “golpe de um 30, e uma campainha pedindo ré”, e exclamou em voz alta: - MEU DEUS ELA JÁ VAI! Sua mãe do jirau ficou olhando e disse: - TA DOIDO MOLEQUE, enquanto ele, correndo pelo caminho olhava a embarcação que manobrava no remanso em frente à sede, com sua amada na caiçara fazendo o último adeus e jogando um derradeiro beijinho, e ele do barranco, controlando o impulso que lhe passava pela cabeça de pular na água e nadar ate os braços de sua amada, ficou assistindo o barco sumir na primeira curva do rio, no rumo de baixo, voltou para casa, pegou aquela camisa, e ficou cheirando a sua única herança daquela noite inesquecível, guardou a camisa em um balde de encher água, e todos os dias, apos o almoço e na hora de dormir, cheirava a camisa com o que restava do perfume da amada, caminhava ate o barranco e ficava imaginando a que distância estava Santarém daquela curva, olhava a canoa e planejava sua partida ao encontro daquela mulher, ao mesmo tempo refletia, mas como o papai vai pescar, eu vou deixar meus irmãos com fome, não posso fazer isso, até o dia que sua mãe encontrou sua preciosidade, e para seu desespero, assistiu sua genitora lambando na ponte no porto com sabão de cacau que fabricava com sebo e cinza, restando-lhe somente a lembrança, até o dia que anos depois, precisou viajar a Santarém para resolver problemas na Caixa Econômica, enquanto o barco se aproximava da cidade, ele pensava: - Eu ia me fumar, a cidade é muito grande. E, assim como o tempo, passou também o sentimento de um momento que jamais se apagara de sua memoria.

No fim desse papo, me chega o Zé do Paraná, que assistiu o final da narrativa e concluiu: - Ah parceiro, tu destes mais sorte que eu, e passou a narrar sua primeira experiência amorosa.

- Eu morava no Paraná de Baixo..., levando a vida com as mesmas peculiaridades da sua, com tudo que a vida do ribeirinho daquela época oferecia, e a uns quinhentos metros acima de casa, moravam os vizinhos mais próximos, que tinham dois filhos, um da minha idade e outro mais velho, e uma filha, linda, meiga, com todos os bons predicados que uma moça do interior podia ter, eu acho que me apaixonei por ela com uns onze anos, passei uns seis anos fazendo tudo que seus pais me pediam, coisas que não fazia na minha casa, como encher água, tirar leite, tudo que eu conseguia de bom, uma fruta, um peixe, levava para aquela casa, só para agradar a ROSINHA, até o nome dela era bonito, as pessoas já encarnavam dizendo, isso ainda vai dar casamento..., ai que piorava, eu não encontrava coragem para abordá-la e pedir-lhe em namoro, quando tinha festa, eu não tinha coragem de puxa-la para dançar e ela passava a noite inteira “fazendo desfeita” para os outros rapazes, eu tinha certeza que esperando por uma inciativa minha, e eu nada de criar coragem, já com uns dezessete anos pra minha felicidade, andando por um caminho no murizal, de longe avistei a Rosinha vindo ao sentido oposto, e eu me preparei, é hoje, só nos dois, como eu vou fazer, a cada passo que dava me vinha uma ideia, acho que vou abraçá-la e beija-la sem que espere, ela iria gostar eu tinha certeza, não, vou ser indelicado, eu vou lhe pedir em namoro, fica mais bonito, à distância ficando cada vez mais curta, o suor já escorria pela testa, e eu sem saber o que dizer, cheguei a me pegar com Deus para me ajudar naquele momento, e não deu outra, assim que fiquei frente a frente com a moça, ela disse: - OI ZÉ, e eu disse – OI ROSINHA, ela passou pela direita, eu pela esquerda, morrendo de raiva da minha “frouxura”, mas assim que dei três passos criei coragem, virei de frente chamando-a pelo nome – ROSINHA, e ela prontamente sorrindo, parecendo que implorava vem me abraçar, ou me pede em namoro, respondeu com aquela voz de pluma: - QUE FOI ZÉ? E eu que tinha pedido tanto a Deus para me ajudar, parece que o Diabo baixou e botou aquela freasse na minha boca, e eu então lhe disse: - TU NÃO QUERES UMAS GALINHAS DE SOCIEDADE? Ela rindo, respondeu: - EU QUERO. E eu disse: - ENTÃO TÁ, DEPOIS EU LEVO LÁ. Com isso, chegou o inicio do ano letivo, ela veio morar na cidade e com pouco tempo sumiu pra Manaus...

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