A MALÁRIA DE GALLUCIO

A MALÁRIA DE GALLUCIO

Fernando Canto.

Quando leio nos jornais que um novo surto de malária está ocorrendo nas comunidades indígenas do Oiapoque, pergunto logo quando será que essa doença, que já vitimou tanta gente, será erradicada.

Amigos e conhecidos morreram dessa doença terrível. Vi pessoas no interior e aqui mesmo em Macapá tremendo de febre e me senti impotente diante da falta de remédio e de outros recursos para poder ajudá-las. Sabia que ela era uma doença infecciosa causada por um parasito do gênero plasmodium, transmitida entre pessoas por um mosquito chamado anofelino, mas me confundia com os nomes dados a ela: maleita, sezão, impaludismo, febre intermitente, tremedeira, febre terçã, febre quartã, etc...

E se hoje ela ainda mata muita gente, imaginem então nos tempos da Colônia. Em 1752 Mendonça Furtado veio à Macapá para tentar conter uma grande epidemia de malária, acompanhado do único médico da província do Grão-Pará. Anos depois, em 1769, Galúcio, o engenheiro construtor da Fortaleza de São José, morreria de “hidropezia” (segundo o médico-cirurgião da obra), a acumulação de líquido seroso em tecido ou em cavidade do corpo, e uma consequência da maleita, pois os plamódios vivem nos glóbulos vermelhos e no fígado do homem. Outros sintomas são os acessos febris, a anemia, que resulta da destruição contínua dos glóbulos vermelhos e a esplenomegalia, que é o aumento do baço.

Mas ainda que a malária seja uma doença frequente nos países tropicais, não é exclusiva deles. Nas vastas regiões pantanosas do norte da Europa, nas regiões bálticas, no sul da Suécia, Holanda e muitas outras regiões têm ocorrido focos de malária. Ela é uma enfermidade conhecida desde a Antiguidade. Os textos de Hipócrates já falavam de febres intermitentes acompanhadas da descrição dos sintomas característicos, como aumento do tamanho do baço e anemia. Hipócrates discorria ainda sobre as causas da doença. Por exemplo, recomendava construir as cidades no alto das montanhas ou em ladeiras, evitando os vales e a proximidade com os pântanos e zonas úmidas. Segundo os escritos, nos vales e zonas pantanosas o “ar impuro” provocava enfermidades de todo tipo. Daí se pode compreender melhor o significado do termo malária, que vem do italiano “mal aria”, ou seja, mal ar.

O papel que esse mal tem desempenhado na humanidade é muito maior que supomos habitualmente. Há testemunhos escritos de que as “febres” despovoaram cidades inteiras. Éfeso, na Grécia, cidade que São Paulo sempre visitava foi destruída por ela. A transformação do rio Caistro em zona pantanosa, as guerras, os terremotos e a expansão dos pântanos contribuíram para a sua destruição, precipitada pelas epidemias de malária que selaram para sempre o destino de seus habitantes. Durante as campanhas napoleônicas no norte da Itália (1796 e 1797, em especial em Mantua, muitas baixas foram causadas pelas temidas febres. Curiosamente foi nessa cidade que nasceu Henrique Galúcio.

Os conquistadores espanhóis trouxeram a malária ao Novo Mundo, de onde precisamente vem o primeiro remédio eficaz contra a doença: o quinino, que se obtém das árvores do gênero Chinchona. Sua eficácia gerou a importação indiscriminada da árvore pelos europeus, a partir do século XVII, e se converteu num negócio muito lucrativo em que os jesuítas também participavam. A produção do quinino provocou uma elevação generalizada nos preços e o aparecimento de falsificações. Só em 1854 é que os holandeses começaram a cultivar as árvores nas suas colônias da Ásia, o que veio cobrir totalmente a demanda.

Muitos avanços ocorreram na história da malária, mas apesar disso os estados do norte ainda convivem com ela. E são preferencialmente os pobres e necessitados das mais longínquas paragens da Amazônia os mais atingidos por ela.

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