A IDADE DOS SONHOS

A IDADE DOS SONHOS

Haroldo Figueira. 

Não apenas dos sonhos, mas das ousadias, do desejo de autoafirmação, da vontade de incursionar pelo desconhecido, das atitudes inconsequentes, da atração pelo proibido, da insurgência contra as regras tradicionais de convivência social, das teimosias, dos questionamentos, da exacerbação da vaidade, do anseio por mais liberdade, da descoberta do amor, das paixões “incuráveis” e por aí vai. Estou tratando da adolescência, obviamente.

Nessa fase do desenvolvimento humano, que se pode imaginar como a ponte entre a infância e a vida adulta, o organismo, sob efeito da liberação de hormônios, não passa só por transformações de natureza biológica – surgimento dos pelos de barba, alterações do timbre de voz nos meninos; aparecimento do fluxo menstrual, crescimento dos seios nas meninas, para ficar em apenas alguns exemplos; - mas de ordem psicológica, também.

Daí que não chega a surpreender que comportamentos razoavelmente comedidos na fase infantil deem lugar, de repente, a outros mais afoitos, precipitados, contestadores, transgressores, avessos ao risco, imediatistas (“como se não houvesse amanhã” para usar uma expressão contida na letra de uma canção popular de sucesso), às vezes até irresponsáveis. De alguma forma, a maioria dos jovens apresenta algum tipo de conduta irrequieta, preocupante para os pais.

Faz parte da trajetória existencial. Em larga medida, funciona como uma espécie de laboratório de aprendizagem, pois ninguém consegue aprender sem fazer experiências, ainda que sujeito a cometer mais erros do que acertos. O importante é que essa etapa siga seu curso sem atropelos. Vai ajudar, mais adiante, a tornar o homem e a mulher mais seguros, equilibrados, confiantes, prontos para conduzir por conta própria os seus destinos.

Lamentavelmente, muitas pessoas na flor da idade veem-se obrigadas a encurtar seu percurso rumo à maturidade. Aconteceu comigo, a propósito. Devido ao repentino falecimento de meu pai, precisei assumir muito jovem o comando da família, tendo de abrir mão de projetos que idealizara para o futuro. Não foi fácil. Nada obstante ter arrostado a nova situação como um dever a ser cumprido, a imaturidade emocional, a inexperiência, o peso da responsabilidade anteciparam-me ansiedades e estresses para os quais não me achava preparado. Felizmente, com a ajuda de Deus, tudo deu certo.

Nem todas as histórias envolvendo circunstâncias análogas, ou mesmo diferentes, mas igualmente interruptivas, têm um final feliz. Basta olhar o caso das adolescentes que engravidam sem o desejarem e defrontam-se com o desafio de ter de criar filhos, muitas vezes em condições precárias tanto do ponto de vista material, quanto psicológico, comprometendo, às vezes, irremediavelmente, os planos que traçaram para mais tarde. Ou dos rapazes que, pela necessidade de ajudar os pais, iniciam-se muito cedo no trabalho (comum junto às famílias simples que vivem no campo), em detrimento da frequência regular à escola, entre outros prejuízos.

Não se pode deixar de pensar, ainda, no enorme número de jovens vítimas da pobreza e da desigualdade social – contados aos milhões – que, entregues desde cedo ao abandono, sem escolaridade, sem ofício, sem esperanças e sem orientação enveredam pelo caminho do crime, tornando-se presas fáceis nas mãos de traficantes de drogas e de outros indivíduos de má índole envolvidos com a bandidagem. Para essa gente, não há sonhos, só a realidade dura das casas de correção, dos cárceres ou a da morte prematura e violenta em enfrentamentos com a polícia ou com colegas de delinquência.

No Livro do Eclesiastes, 3, a Bíblia ensina: “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar e tempo para sarar; tempo para demolir e tempo para construir; tempo para chorar e tempo para rir...”. A adolescência tem um tempo determinado pela natureza. Entendo que, salvo pela ocorrência do imponderável, a nenhuma pessoa deveria ser subtraída a oportunidade de vivê-lo em plenitude.

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