CONTO DE ESCOLA

CONTO DE ESCOLA

Por Rômulo Viana*. 

Não houve argumentos suficientes para que a professora mudasse de opinião. O fato é que ele havia feito sim o trabalho e se propusera a ir em casa, mesmo de bicicleta, buscá-lo. Mas a mestra cerrou os ouvidos aos apelos quase que de choro do aluno: NÃO !

Ele não era um carregador de livros. Era aluno dedicado e inteligente (exceto nas disciplinas de exatas). Nos dias de prova e apresentação de trabalhos acordava no mesmo horário dos pais (que saiam ainda de madrugada para a labuta do ganha pão). Mas o resultado daquela fatídica segunda nota vermelha, até a sexta série,  fora resultado de um descuido de esquecimento do trabalho de aula em casa.

Acordara no horário de praxe. Arrumara-se cadernos, livros e farda. Tomou o próprio café e partiu de bicicleta rumo ao Almirante. E somente lá, após a chamada para apresentação do trabalho (uma proposta de redação, vejam só). É que havia si dado conta do esquecimento. Quase chorou, pois sabia que a não apresentação resultaria em nota vermelha. Mas esse conto não se resume somente a isso. Trata-se de um conto de fé, também…

Nos dias que se seguiram a professora divulgou em voz alta a nota de todos. Chamados os trinta e três primeiros foi chegada a sua vez:

- Número trinta e quatro nota 35. Pronunciou em timbre altíssimo.

Não somente ele, mas a turma inteira ficou perplexa com aquela nota baixíssima digna dos carregadores de livros. E naquela mesma noite começou, em casa, uma jornada de fé tendo como prece que a nota vermelha se transformasse em nota azul.

As noites, ao dormir, ajoelhava-se no antigo beliche e pedia com toda devoção que aquela trágica nota como que por um poder messiânico se transforma-se, em pelo menos, num 50 (nota mínima de aprovação naquela época). Pai Nosso, Ave Maria, terço, Rosário… nada deu certo.

Semestre encerrado e a nota permanecera a mesma. Estava lá enfeiurando seu boletim. Um grande vermelho escorrendo em sangue entre a quase totalidade de 100, 90, 80, 85 (exceto nas exatas rsrs).

Teria a fé sido pouca nas orações? Teria Deus renegado os pedidos daquele filho posto de joelhos em oração? Teria não sido merecedor de tal milagre?

Ainda que o milagre não tenha ocorrido, não deixou de crê em Deus. Mas aprendeu que embora a fé mova montanhas, ela não move nota vermelha.

Daquele dia em diante não mais esqueceu trabalhos de aula em casa.

*É Servidor da Ufopa/Óbidos com graduação em Letras; Mestrando em Educação.

 

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