FRANCISCO DE ASSIS – BREVE OLHAR

FRANCISCO DE ASSIS – BREVE OLHAR

Edilberto Santos

 “Há homens que, vivendo profundamente a problemática do seu tempo e de seu povo, são tão humanos que permanecem como inspiração para todos os tempos e todos os povos. Francisco de Assis é um desses homens raros que, ao longo dos séculos, das latitudes e longitudes, interpelam, questionam, desinstalam”. Dom Hélder Câmara.

Em data que não se pode precisar, mas estimar entre a 2ª metade do ano de 1181 e o 1º semestre de 1182 nasceu na cidade de Assis (Itália) um menino que recebeu de seus pais o nome de GIOVANNI DI PIETRO DI BERNARDONE filho de um comerciante chamado Pietro di Bernardone dei Moriconi e de sua esposa Pica Bourlemont, nome que posteriormente seu pai, bem sucedido comerciante em Assis cuja família integrava a rica burguesia daquela cidade, mudou para FRANCISCO em homenagem à França origem de sua esposa e mãe do garoto, ficando aquela criança conhecida em Assis como o “pequeno francês”.

Cresceu e foi educado como qualquer menino rico da cidade de Assis, e quando ainda jovem e tendo à disposição a riqueza material que lhe proporcionava a família, tornou-se popular entre seus amigos de juventude em razão de seu comportamento rebelde, pelas suas extravagâncias, bebedeiras, roupas caras, por esbanjar dinheiro e ainda ser apaixonado por aventuras de toda ordem.

Em 1202 ingressou como soldado na guerra de Assis contra Peruggia tendo sido capturado, passando cerca de um ano na condição de prisioneiro de guerra e com sua condição física debilitada, foi libertado para morrer em casa onde foi tratado com muito carinho e amor pela sua mãe.

Faleceu para a vida física deste mundo em 1226 e foi canonizado dois anos depois em 1228 quando foi reconhecido como Santo pela igreja católica. Em 1979 foi proclamado Santo Patrono dos Ecologistas pelo fato de ter sido grande admirador e devotado profundo amor à natureza e aos animais e como Poeta cantava o Sol, a Lua (irmão Sol e Irmã Lua) e as estrelas, tendo inclusive a capacidade espiritual de apascentar feras.

Era uma pessoa de elevadíssima iluminação espiritual e a data de 04 de outubro é comemorado como o seu Dia, lembrando que suas manifestações poéticas eram feitas em francês, país e língua de origem de sua mãe.

Somente por volta de 1204 é que, sentindo-se melhor após receber o tratamento que lhe deu sua mãe quando voltou da guerra, Francisco retornou aos seus passeios pelos floridos campos da cidade de Assis, passando a fazer o que mais gostava que era estar em íntimo contato com todas as manifestações da natureza, observando pássaros, abelhas, coelhos, rios, cascatas etc. etc.

Igreja de São Damião, em Assis- Itália 

Francisco costumava frequentar uma antiga e semi-destruída capela de São Damião localizada em Assis para lá Orar aos pés de um crucifixo bizantino, e consta que ouviu uma voz que vinha do interior desse crucifixo que lhe disse: “Vá, Francesco, e ristora la mia Chiesa che, como vede, vá em rovina” – (Vá, Francisco, e restaura a minha igreja que como vês, acha-se em ruínas).

Nesse momento Francisco “morre” para o mundo mundano e “renasce” definitivamente para Deus, agora no seio da Igreja, e inicialmente entendeu o que ouviu como um apelo de Cristo para que ele restaurasse materialmente sua Igreja daí porque vendeu tecidos caros e outras mercadorias valiosas do comércio do seu pai por preço abaixo do praticado em Assis, e mandou restaurar fisicamente a Capela de São Damião, São Pedro e de Santa Maria dos Anjos e somente mais tarde veio compreender que a restauração que a voz que ouviu lhe pedira, não era a restauração física, mas sim, a restauração dos preceitos cristãos dos quais a Igreja Instituição estava se desviando.

O crucifixo de São Damião. 
Por Mestre anônimo do século XII, hoje na Basílica de Santa Clara.
 

Dentre as três virtudes do cristianismo a Fé a Esperança e a Caridade Francisco ressaltou a CARIDADE como virtude de excelência, e com seu exemplo pessoal após sua conversão extremada ao Cristo Jesus, revive em sua plenitude a caridade descrita na parábola do Bom Samaritano, obedecendo ainda o maior Mandamento da Lei de Deus que é “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

A partir do entendimento de estar sendo chamado por Deus, mudou completamente sua vida passando a ajudar os pobres e leprosos a ponto de, certa vez, colocar sobre um cavalo várias peças valiosas de tecidos, obras de arte e outros bens valiosos e desceu para Santa Maria dos Anjos, a parte baixa da cidade, e lá vendeu tudo inclusive o cavalo e voltou a pé para casa doando depois o dinheiro arrecadado aos pobres.

Por essas e outras, seu pai o aprisionou em uma espécie de gaiola para que refletisse sobre seu comportamento sendo de lá libertado por sua mãe, e também pediu ajuda ao Bispo para que fizesse cessar as extravagâncias do filho, quando então ocorreu o célebre rompimento do pai e do filho fazendo com que Francisco se despisse em praça pública devolvendo suas ricas e caras roupas ao seu pai, dizendo dele nada mais querer a partir daquele momento, o que fez com que o Bispo o cobrisse com seu próprio manto à vista de várias pessoas.

Esse momento da vida de FRANCISCO mostra a renúncia dele aos bens mundanos e provoca na sociedade de Assis comentários e incompreensões, por estar ele, jovem e rico desprendendo-se dos bens materiais a que tinha acesso e que eram cobiçados por todos, a ponto de passar a ser conhecido como “Il Poverello” ( O pobrezinho).

Antes de significar apenas o desprendimento de FRANCISCO dos bens materiais, o seu ato de despir-se e entregar suas roupas para seu pai (ver gravura abaixo) tem o significado maior do nascimento dele de novo, agora para Deus, deixando para traz aquele jovem rebelde e devasso que havia sido até então, assumindo sua filiação com Deus como verdadeiro Cristão.

A atitude de se despir nos remete ao entendimento da grande dimensão espiritual de seu gesto, posto que assim corresponde ao verdadeiro amor de Deus e à sua misericórdia, pois que agiu diante de uma autoridade eclesiástica (Bispo de Assis) e de todo o povo, sendo um gesto de arrependimento e misericórdia, dizendo também que não guarda nem rancor nem ódio em seu coração, assumindo como forma de penitência a partir daquele momento em que se despiu, uma vida desprendida de todo e qualquer valor material, o que nos remete também à conclusão de que também contra seu pai biológico em momento algum guardou rancor do tempo em que este, sem entender a grandeza dos gestos de seu filho, lhe repreendia a ponto de lhe tolher a liberdade física.

É de FRANCISCO a lição que nos legou ao se despir, quando disse que assim como ele nasceu do ventre de sua mãe e veio totalmente nu, naquele instante ele se despia de tudo aquilo que lhe prendia àquela vida até mesmo da roupa do corpo, para nascer de novo agora pela Graça de Deus, passando a expressar seu amor pleno, seu amor Ágape diante da miséria humana e seus dramas existenciais, que ficam claramente visíveis na Oração de São Francisco que abordaremos oportunamente, estrofe por estrofe.

Renúncia de São Francisco aos bens mundanos
Por Giotto di Bondone

Desse dia em diante, Francisco entregou-se por completo ao seu ministério desposando a quem chamou de “Dama ou Senhora Pobreza” e passou a viver e seguir com rigoroso fervor o evangelho de JESUS, com o firme propósito de restaurar a igreja conforme havia lhe sido pedido pelo Mestre.

 

Sasseta: Casamento de São Francisco com a Senhora Pobreza, 1437-44.
Museu Condé (As duas outras figuras femininas representam a Obediência e a Castidade).

Em 1209 quando fazia uma invocação do Evangelho em Porciúncula, Bernardo de Quintavalle, Pietro Cattani e Giles, pessoas de posses, abandonaram também a riqueza tal qual fez Francisco, tornando-se estes os primeiros companheiros peregrinos de Francisco.

Em 1210 Francisco, à semelhança de Jesus Cristo, já se fazia acompanhar de 12 seguidores e com eles foi a Roma na busca da aprovação pelo Papa das Regras que seriam os fundamentos da ordem que fundara a ORDEM DOS FRADES MENORES, posteriormente chamada ORDEM DOS FRANCISCANOS tendo logrado após algum tempo e alguns debates e mesmo contrariedades, aprovar as Regras que Francisco passou a exigir de seus seguidores como sejam: doação de seus bens aos pobres; prática da castidade; vivessem de esmolas; tivessem para cobri-los apenas duas túnicas em forma de cruz, sendo uma com capuz e outra sem, amarradas na cintura por uma corda; um par de calções e um par de sandálias para ser usado quando necessário.

 

Inicialmente quando Francisco chegou a Roma acompanhado de seus seguidores, contam seus historiadores, estavam sujos cansados e maltrapilhos e não foram sequer admitidos no recinto da Igreja Romana onde estava o Papa, sendo aconselhados ironicamente por quem os recebeu a pregar junto aos porcos, o que Francisco e seus seguidores efetivamente assim o fizeram e após a pregação da Palavra de Deus no chiqueiro, voltaram ainda mais sujos e determinados a falar com o Papa que devido esta insistência e determinação, foram admitidos todos, após, imagino eu, terem tomado um bom banho.

A suntuosidade e riqueza da igreja em Roma acabaram por solidificar ainda mais a convicção religiosa e a escolha de Francisco pelos desvalidos, da mesma forma acontecendo com os que lhe seguiam, que sentiram o acerto de suas escolhas em oferecer conforto e a palavra de Deus aos pobres.

A vida de Francisco de Assis após o episódio de despir-se em praça pública até sua morte é repleta de exemplos e demonstrações da fé cristã, e revelam altíssima iluminação espiritual desse que é cultuado como Santo protetor dos pobres, dos doentes e desvalidos e da natureza, tendo seus milagres sido reconhecidos como tal no mundo inteiro, e possui uma legião de devotos que com ele buscaram e buscam curas para os males do físico e da alma, e a ele devotam sua fé.

A ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO cantada em várias línguas, ano após ano, continua emocionando todos que a ouvem, tal a beleza de sua mensagem e a sonoridade de seus acordes.

Voltarei em breve com o mesmo assunto tentando analisar, dentro da minha visão, a ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS estrofe por estrofe.

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Belém-Pa,  30 de maio de 2016

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