A “POLIVALENTE”

A “POLIVALENTE”

Jorge Ary Ferreira. 

Eu, na qualidade de paraense da Gema - que muito me orgulha, posso dizer que pouca coisa eu conheço que sirva um grande leque de opções na culinária como a nossa querida farinha. Não lembro, na minha infância, de ter comido um dia sequer sem a “bendita”. Naquela época, sabíamos até sua procedência. Era da fabricação do “Seu”” Rosemiro, lá da campina. Para quem não o conheceu, era sogro do saudoso Rudimar. Fabricava uma farinha d'água bem torrada e grossa de quem meu pai era freguês.

A minha família - tanto materna como paterna, tem raízes amazônicas muito profundas: Minha “vó Miró”, oriunda do Tapajós - mais precisamente de Brasília Legal, tudo o que comia tinha o acompanhamento da farinha. Até no cafezinho das 2 horas da tarde ela levava uma colher e a farinheira para a mesa e com isso você pode imaginar. Suco de taperebá não é tão gostoso sem farinha. Idem pra laranja, abacatada, pudim, etc. Tudo minha avó comia com farinha e eu confesso a vocês que também gosto muito. Hoje, já não é mais tão “baguda” por que os dentes já não aguentam mais e uma argola que me botaram no esôfago, em uma redução de estômago, e confesso que também não é muito agradável.

Há três dias, minha filha preparou uma comida mexicana que a base é abacate, chamada guacamole. É servida como uma espécie de torrada ou cascalho. Eu comi e é gostoso, mas sinceramente, aquilo ficaria bom mesmo com farinha.

Certa vez presenciei servirem uma fatia de pizza para o meu sogro - o “Presidente” como era conhecido. No primeiro pedaço que ele meteu na boca, disse logo em seguida: - Mas “purra”, me trás uma farinha!

Na culinária paraense ela se faz presente constantemente. Se você faz um sarapatel, você usa a farinha para engrossar. Imagine uma mojica de apapá sem farinha para engrossar o caldo. A meu ver fica apenas uma água pitiú; mas se der uma “mojicada” com um “cuí” de farinha, torna-se um manjar amazônico. Sem dúvida um dos melhores pratos que eu conheço. Para o paraense a Maniçoba chama farinha, açaí não existe sem ela, pato no tucupí necessita, peixe se empoa na farinha pra fritar e nem pense em servi-lo a um paraense sem uma “folheta” de “baguda” do lado. Tanto faz se é ensopado, assado, frito, caldeirada. Se não tiver farinha é capaz de não comer. Em Alenquer, antigamente, tinha o festival do Acari. Lá havia um concurso para ver quem comia mais Acari. Ao entrevistar um dos concorrentes, lhe perguntaram: - É verdade que você come 10 acaris? Resposta: - Depende! E o repórter perguntou: - Depende de que? - Se tiver uns dois quilos de farinha, pode enfileirar! E o cara estava certo. Imagina comer acari sem farinha!

Tem um ditado amazônico que diz o seguinte: -"Rede e farinha não cansa cavalo"! O nortista para onde vai, leva a sua rede e um saquinho com farinha porque a metade da refeição já está garantida. Se arrumar um piracuí, pronto! Tá feito o almoço! Se achar uma árvore caindo uxi, tá feito também! Se achar uma castanha, é só botar para dentro. O que você puder imaginar o paraense come com farinha. Então, para se entender melhor esse ditado, levando a rede - leva consigo o hotel; e a farinha - tá garantido a “bóia”.

Portanto, minha gente, a farinha para o paraense é mil e uma utilidades. Lembro, inclusive, que na nossa juventude no tempo do “barreirão”, o saudoso Chagas Grude - fora do período da festividade de Santana, se estabelecia no Clipper, onde de noite funcionava um pequeno restaurante que ele servia a sua especialidade: Linguiça do Chagas! Era assada na farinha umedecida com álcool. Colocava um pouco de farinha com álcool em uma panela usada apenas para aquele fim, botava fogo e jogava linguiça dentro. Assim ela era assada. Os mais antigos com certeza lembram disso. Até para o preparo da alimentação a farinha tinha sua utilidade.

Acho que a primeira vez que experimentei uma refeição sem a sua presença, foi já com 24 anos de idade quando precisei viajar a São Paulo em um curso profissionalizante e, no hotel Danubio - na Brigadeiro Luís Antônio, onde hoje se estabelece a Federação Paulista de Futebol, a refeição era servida com o acompanhamento de uma farofa que para mim mais parecia trigo e não consegui comer. Eu não sabia me comportar sem a farinha no meu prato. O que fazer? Olhava para todo lado e não encontrava nada naquela mesa farta que se parecesse um pouquinho com a farinha paraense, sem a qual eu francamente não sabia comer. Aquilo para mim parecia uma ração. Não era aquela comida gostosa, prazerosa e nem estalava no dente.

Passaram-se duas semanas que sinceramente, eu comia porque era necessário e, no dia que eu pisei em Belém - de volta daquela viagem, comi sem arroz, sem feijão, sem nada! Só a carne e farinha para matar a saudade.

Na segunda viagem que fiz, fui para Águas de Lindóia - uma pequena cidade serrana no nordeste Paulista. No início de um curso de analista de crédito, um instrutor, para quebrar o gelo da turma e conhecer melhor, pediu que cada cidadão se apresentasse dizendo a cidade de onde vinha e duas características da sua região. Tinha gente do nordeste, do norte, do centro-oeste e, cada um colocava as suas iguarias e dizia a cidade de sua origem. O nordestino lá de Caicó lembrava de um tal de Xique-Xique Macambira - comida deles; o baiano falou do Acarajé e do Abará; chegou a minha vez eu me apresentei: - Disse meu nome, venho do Pará - mas não propriamente de Belém. O Pará é um estado muito grande. Eu vinha do Baixo Amazonas, da cidade de Óbidos - próximo à fronteira com o estado do Amazonas - que tinha costumes diferentes do nordeste paraense, Sul do Pará, Zona Bragantina, e que as duas características da minha região era "farinha grossa e rede suja". Logicamente todo mundo se assustou. Indagaram, pediram que eu explicasse e eu disse que uma das raivas do paraense é quando alguém lavava sua rede sem lhe avisar - porque como a nossa região as noites são quentes e a rede suja é mais fria deixando as noites suportáveis; e a farinha grossa, por que o paraense não gosta de farinha fina e para onde viaja, leva a sua farinha baguda, inclusive eu naquela viagem, havia levado a minha - porque não conseguia comer a farinha servida no Estado de São Paulo. Sendo aquela a minha segunda vigem, já fui preparado com minha “puqueca” na bagagem. O instrutor disse não entender por que se gostava tanto de farinha na Amazônia, uma vez que não tinha propriedades nutricionais e era apenas um volume na alimentação. Eu respondi a ele o seguinte: - Se ela é nutritiva eu não sei lhe dizer, mas, tem três coisas que a farinha atua de forma fantástica: - Esfriar o que é quente, engrossar o que é fino e aumentar o que é pouco. Expliquei para ele que quando a comida é servida muito quente, você não consegue comer e coloca um pouquinho de farinha que ela fica na temperatura ideal; você pode perfeitamente começar a refeição. Como nós não somos adeptos de comida muito rala, a gente faz um “caribezinho” com ela e ingere com maior prazer o caldo grosso. E, quando tem pouca carne, peixe ou feijão, a mãe sempre diz: - “Puxa pela farinha"! Ou seja, faz “render” que hoje tem pouca “bóia”!

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