REENCONTRO COM A TERRA NATAL

REENCONTRO COM A TERRA NATAL

Fernando Canto

A serra da Escama parecia um altar aos meus olhos viajantes. A coloração azul ao longe refletia no céu como um lago de espelho invertido. E eu ali, numa expectativa sem precedentes roía-me de ansiedade.

Entre células que se degeneravam e gotas cadentes quase contidas, eu me preparava para o encontro com a minha memória, com as pessoas e com a minha cidade, após 34 anos de ausência.

A lancha que viajamos vindos de Santarém enfrentava a corrente do Amazonas a vinte milhas náuticas, o equivalente a 32 quilômetros por hora, traduziu-me o primo Alacid. Era um contínuo e injusto embate entre natureza e invento humano. Na aproximação a câmera capturou a paisagem construída e os arredores imersos nas águas da maior enchente de todos os tempos. Dava a impressão de uma catástrofe, pois o sol das doze horas duplicava a luz ao incidir nas águas da frente da velha cidade. Fomos deixados por sobre um cais improvisado que se estendia por uma passarela de três tábuas até a parte mais seca da rua, pois ora a cheia já começava o seu vazamento.

A cidade nos esperava no alto, mas o cheiro de um churrasquinho vendido no pé da ladeira despertou a fome e inevitável foi consumi-lo. Depois subimos a rua das mangueiras. De passo em passo eu me voltava para trás para olhar aquele cenário: era um céu o manto do rio lá embaixo. Embarcações passavam como répteis sobre aquela forma líquida, descendo. Descendo não, correndo, enquanto as outras, menores, se esgueiravam em sua margem no sentido oposto.

Após breve descanso fomos ao centro histórico: então um turbilhão de lembranças aflorou em mim como se eu houvesse participado da construção daquela longínqua vila que se instaurou no solo amazônico. Naqueles outros “dias recurvos”, diria o grande romancista obidense Ildefonso Guimarães, creio que construí fortalezas com lágrimas de dor, mas a ferro e fogo rompi a floresta e soterrei os inimigos com a abundante tabatinga do lugar.

Uma volta ao pôr do sol na roda-gigante do parquinho me deu as dimensões da história e das permanências do lugar. A luz sobre cidade direcionava os quadrantes de sua geografia. Perto dali a presença dominadora da Igreja abraçava-me ao vento enquanto o antigo quartel do Exército, com seus minaretes e torreões, quase vermelho ao poente, mostrava toda a sua imponência. O branco cemitério, adiante, se rutilava em prantos dos apelos dos heróis redivivos. Então, aos poucos a cidade foi esmaecendo e sua bela arquitetura colonial tornou-se apenas pingos de um tecido brilhoso de luz artificial.

Confesso que esse encontro fez meu coração bater bem mais acelerado. Aliás, a ânsia fora provocada há tempos, quando o Alacid me convidou pela enésima vez para fazer esta viagem, e eu, enfim, resolvi encará-la. Obidense, o arquiteto e empresário Alacid Canto, como todos os membros da sua família (incluindo, é claro, seu irmão João, que alimenta o site “Chupa Osso”), é um radical propagandista de seu amor por este importante município do Pará, no médio Amazonas, que tem como atração a sua própria história, a arquitetura e uma insólita estrutura cênica natural, na realidade um convite dos deuses para a poesia. E para a música.

Dizem que a memória é aquilo que somos à luz do que não somos mais. Por isso, talvez, este reencontro me sirva para consertar o que não quebrei, mas que a vida fez colidir com os muros que não ergui; que sirva para trazer à tona a amizade que me foi privada pela brusca partida – aquela que deixa quebrantos enrolados nas brumas da serra – porém, que num dia qualquer de sol com chuva volte entre as nuvens. Ou, quem sabe, como um fogo-fátuo, efêmero, mas brilhante.

Ainda estou aqui, velho coração, observando o cimento sobre os paralelepípedos da minha infância. Desacelerando ladeira acima.

Texto publicado originalmente em 2009.

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS