O quadrilheiro do bem

O quadrilheiro do bem

Haroldo Figueira

A certa altura de nossa caminhada terrena, quando se olha para trás, vê-se que já são muitos os amigos que tombaram pela estrada, alguns de forma prematura, até. Gente próxima, que conviveu conosco na infância, no período da juventude ou no ambiente de trabalho. Relutamos em aceitar as perdas, mas, infelizmente, essa é a realidade de nossa trajetória existencial. Uns vão antes, outros depois, mas, inescapavelmente, todos temos que partir uma dia.

A morte, porém, não é o fim de tudo. Vai-se o ser humano, ficam as suas lembranças. O interessante é que, ao evocá-las, nossa memória costuma funcionar de modo seletivo, isto é, traz à tona apenas recortes agradáveis da vida dos entes que nos deixaram. E isso, de certa forma, parece fazer sentido, pois nos ajuda a lidar melhor com a saudade e o vazio da separação.

Dias atrás soube da morte do Sérgio Santos. A notícia de seu passamento me encheu de pesar. Não só pelo fato de que foi uma pessoa com quem mantive relação de amizade, mas também por ter sido possuidor de algumas aptidões sociais e esportivas que me causaram grande admiração. Ocorre-me citar pelo menos três atividades em atuou com destaque: a dança de salão, o futebol e a condução das quadrilhas juninas.

Dava gosto vê-lo dançar. Apreciava assistir às suas exibições na pista de baile dos salões da ARP. Deslizava com seu par, independentemente do ritmo melódico tocado pelo conjunto musical, com movimentos precisos e elegantes. Confesso que algumas vezes cogitei imitá-lo. Logo aprendi, no entanto, que aplicação e boa vontade não são suficientes para dominar uma arte. É preciso ter talento.

 Deu-me muitas alegrias como atleta do Mariano Futebol Clube, time de minha predileção. Atuava como goleiro. Sua agilidade e elasticidade eram impressionantes. Agigantava-se debaixo dos três paus. Fechava o arco, para usar uma das expressões do mundo da bola. Sua presença no clássico local entre Mariano e Paraense era a garantia de que, com ele no gol, Ronaldo Caxinga – um dos maiores craques que vi jogar –, o expoente do esquadrão vermelho e terror das defesas adversárias, encontraria pela frente um paredão difícil de ser transposto.

Escrevo este artigo na noite de São João. No Brasil inteiro e na região Nordeste de modo particular, as festas populares de junho são um espetáculo à parte. Depara-se, aqui e ali, com a abundância de comidas típicas a base de milho, brincadeiras ao redor de fogueiras, fogos de artifício e de estampido cortando o céu, homens, mulheres e crianças, em trajes estilo caipira, divertindo-se ao som da sanfona, do triângulo e do zabumba, entre tantas outras manifestações ligadas a esse extraordinário festival folclórico.

Da janela do meu apartamento, dá para perceber o ar carregado de fumaça e sentir o forte cheiro de madeira queimada provindos dos muitos ajuntamentos festivos espalhados pela capital natalense, de onde me chegam aos ouvidos, também, as melodias contagiantes dos baiões, marchinhas e xotes imortalizados por Luiz Gonzaga. Os festejos estão no auge e certamente vão durar a noite inteira. Imediatamente meu pensamento retrocede cinquenta, sessenta anos e revisita Óbidos, fixando-se na figura animada do Sérgio.

Tratava-se do mais requisitado marcador de quadrilha da cidade. Organizava a apresentação dessa modalidade de bailado do nosso folclore com extrema maestria. Sob sua liderança, moças e rapazes da época que se dispunham a executar em público os movimentos da dança, eu algumas vezes, inclusive, treinávamos com afinco  para fazer bonito nos dias de exibição. E não havia erro. Com ele a nos conduzir o sucesso do espetáculo estava assegurado.

Entregue à divagação, visualizo o cenário do antigo “arraiá” de chão de terra, ornamentado com pés de piririma e bandeirinhas coloridas. Parece que ouço, também, a voz do Sérgio exclamando: “anavantu!”, “anarriê!”, “balancê!”, “atenção para o túnel!”, “preparar para o xis!”, “olha o caminho da roça!”, “lá vem chuva!”... Imagino ver, ainda, a moçada da quadrilha respondendo aos comandos do líder com evoluções esmeradas, sob os efusivos aplausos da plateia à sua volta.

A homenagem que ora presto ao amigo que se foi, resgatando dos arquivos da mente tão gratas recordações, procura traduzir o apreço que dedico à sua memória e o meu reconhecimento pelas múltiplas oportunidades de deleite que me proporcionou. Descanse em paz, companheiro! E que Deus, em sua infinita bondade, acolha você na Morada Celestial.

 

Natal, 24 de junho de 2016.

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