ENCONTRO DAS FOLIAS DE SANTO: Bênção à Cidade Presépio 

ENCONTRO DAS FOLIAS DE SANTO: Bênção à Cidade Presépio 

Prof. Itamar Rodrigues Paulino 

As performances culturais tradicionais de matriz afro na Amazônia Brasileira são de uma riqueza imensa. É por meio delas que os afrodescendentes manifestam o orgulho de suas vidas, recompostas desde sua chegada em terras amazônidas, e contadas ao mundo como expressam viva de sua identidade e memória. As terras amazônidas, principalmente, as da região oeste paraense, e com destaque as terras da microrregião de Óbidos estão repletas de comunidades afrodescendentes, chamadas de comunidades quilombolas. 
No contexto das manifestações culturais quilombolas, as lembranças mais recorrentes são as das festas de folia de santo. Na cidade de Óbidos, essas manifestações estão vivas e a cada ano os foliões se encontram em suas comunidades para exaltar a vida de seus santos protetores e pedir bênçãos e paz.

Introduzidas no Brasil por portugueses, ainda na época da colonização, as folias são de fato de origem egípcia, levada à Europa por espanhóis e adaptadas à cultura religiosa cristã. Os portugueses reinventaram as folias e as trouxeram para o Brasil. Nessas terras, as folias ganharam novos contornos culturais. Na Amazônia, as folias de reis são festejos que tomaram forma nos ambientes quilombolas.

Em Óbidos, ocorrem as folias de santos, que se diferenciam das folias de reis realizadas nas pequenas cidades, sobretudo, nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, Paraná, Rio de Janeiro e Goiás. Enquanto os grupos foliões de reis dessas cidades comemoram os festejos de Natal visitando casas, tocando músicas em louvor aos "Santos Reis" e ao nascimento de Cristo, as folias de santos em Óbidos são realizadas nas datas celebrativas do santo protetor da comunidade quilombola.

A Folia dos santos de Óbidos é um ritual com procissões e oferendas a um santo ou santa protetores. A imagem do santo ou da santa é levada durante três dias às casas dos comunitários, que a recebem com devoção, manifestada por meio de cantos e benditos, de “puxações” de ladainhas. A procissão é um ritual de alegria, com seus dançantes caracterizados de figuras folclóricas, liderados por um mestre folião.

Em Óbidos, os foliões se permitem ser liderados também por mulheres. Seguindo os rastros da bandeira, de cor brilhante, levada à frente da procissão por uma porta-bandeira representativa do grupo, os foliões vão de casa em casa pedir presentes para suas atividades sociais. No terceiro dia de festa, os participantes são agraciados por uma festa gastronômica com comidas e bebidas típicas como maniçoba, vatapá, galinha caipira, e churrasco de carne, frutos de suas plantações e criações. No final do festejo, todos acorrem ao centro da comunidade para a derrubada do mastro, momento de forte apelo religioso e expressão devocional de agradecimento pelas bênçãos da fartura de alimentos. Os mastros, por isso, são como cabides pendurados de frutos produzidos pela comunidade. 
Os grupos foliões são compostos pelos filhos reisados (representantes dos reis), ou foliões dos santos no caso dos grupos foliões de Óbidos. Há também os bastiões, encarregados de proteger a bandeira pavilhão do grupo, realizar acrobacias com seus bastões e decifrar letreiros que ficam na frente das casas a serem visitadas. Há a presença do mestre ou embaixador, organizador da logística do grupo, do trajeto, horários e instrumentos, e improvisador de versos cantados nas residências. Na folia, a manifestação do coro faz a festa ficar ainda mais bela. O grupo é composto por músicos, tocantes de instrumentos em sua maioria confeccionados artesanalmente, tais como flauta de bambu, tambores feitos de pele de cabrito, reco-reco, rabeca produzida de forma rústica. Em certas regiões, há também a presença da viola, do acordeão, sanfona, gaita ou pé-de-bode. 
O evento tem caráter místico, cultural e religioso e é preservado com elementos do universo africano, carregando consigo características simbólicas e de tradições das mais remotas comunidades do continente negro mescladas à cultura religiosa católica transmitida pelos Padres Capuchos (Franciscanos) da Piedade que assumiram a evangelização, durante os séculos XVIII e XIX ao longo da margem esquerda do rio Amazonas, na região do Baixo Amazonas.

As celebrações são constituídas de vários rituais de devoção religiosa e profana. Para os quilombos do Silêncio, do Matá, do Arapucu e das diversas comunidades quilombolas de Óbidos, a folia de santo não é apenas um momento senão o momento esperado do ano, espaço de demonstração, devoção, manifestação social e de expressões culturais marcadamente caboclas. Essas demonstrações são caracterizadas por suas particularidades, suas essências, sua identidade legitimamente africana, e que foi louvada por vários anos. Nos tempos atuais, silenciadas, elas estão presentes na memória dos mais antigos que, no valoroso esforço de resgate dos eventos memoriais distantes no tempo passado, tentam relembrar os lugares, os grupos e as simbologias que transparecem a identidade quilombola. Nessa recordação, há falas saudosistas sobre as origens de brincadeiras como o carnaval, a quadrilha, a dança de pássaros como o tangará e a garcinha, o carimbó, o Lundu.

Neste domingo, memorável 24 de julho, o encontro das folias se faz ouvir. Ele rompe o silêncio da cidade presépio desde as oito da manhã para apresentar o barulho religioso festivo de reisado das comunidades rurais quilombolas. Nem sempre é possível compreender as letras das canções de folia por conta do caos sonoro decorrente de variações rítmicas ocorridas ao longo dos tempos, de contornos de origem africana, das fortes batidas cadenciadas dos tambores e das vozes emocionais despreocupadas com a harmonia e a afinação sistemática. Entretanto, é importante saber que o som estridente das canções são “barulhos” religiosos. Barulhos que são vozes de resistência à padronização dos rituais elitistas das Igrejas cristãs.

Ao prestigiar o encontro das folias de Óbidos, o festeiro deve preparar seu espírito para uma viagem no tempo e compreender que esse momento festeiro é expressão viva das misturas culturais da cidade, vindas da Europa, da África, e as Indígenas que aqui já estavam. As folias são festas de agradecimento e fortalecimento da unidade social. Óbidos estará por isso mais abençoada e mais unida no dia de hoje porque nesse encontro não haverá outra história senão a história de um povo que sabe festejar sua identidade e sua memória. Abençoada seja a cidade presépio.

 

 

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