Resenha do livro MAMA GUGA, de Fernando Canto

Resenha do livro MAMA GUGA, de Fernando Canto

Fernando Canto (1954 – Óbidos, Pará) é um dos autores mais importantes da história literária do Amapá, tendo se destacado por seus livros de contos (O Bálsamo e outros contos insanos) e crônicas (EquinoCio: textuário do meio do mundo). Com formação em Sociologia, o autor defendeu recentemente sua tese de doutoramento, na Universidade Federal do Ceará, tendo a Fortaleza de São José de Macapá como objeto de pesquisa. Mestre em Desenvolvimento Regional pela Universidade Federal do Amapá (Unifap), Fernando Canto consegue extrair da cidade de Macapá e da própria Fortaleza elementos que lhe servem tanto de investigação intelectual quanto de inspiração ficcional para uma obra literária que se vincula à tradição fantástica presente nas Letras da Amazônia e da América Latina. No final das contas, Fernando Canto nos apresenta um espaço de uma “Realidad Maravillosa”, para falar como Alejo Carpentier no seu prefácio a El reino de este mundo, recuperando sua temporada no Haiti.

É assim este Mama Guga: contos da Amazônia, que sai editado pela paraense Paka-Tatu, com 26 contos inéditos, com exceção de “Tsunami”, “O quarto de recordações” e “O retrato azul”. O veio fantástico da escrita de Fernando Canto provoca a experiência do estranhamento no leitor – seguindo a boa e velha orientação de Todorov – em boa parte dos contos de Mama Guga, mas também dialoga com o cenário político amapaense (na projeção de uma realidade futura, em “O sanitarista”), com o contexto da ditadura militar no Brasil (“Mama Guga”) e com os conflitos de terra na Amazônia (“Natanael na janela”, conto que encerra melancolicamente o livro).

Um lugar de importância nos contos da coletânea é a orla de Macapá, a famosa “frente da cidade”, também conhecida como Beira-Rio da única capital brasileira banhada pelo Amazonas (“A cidade encantada sob a pedra”, “Tsunami”, “O sanitarista”). Quando os acontecimentos não ocorrem predominantemente na orla, ao menos ela é citada pelo narrador ou personagem como ponto de referência (“A pulseira de Das Dores e seus vizinhos vulturinos”, “Dias iguais”, “Cornucópia de desejos”). Mas o espaço que prevalece nas narrativas dessa coletânea é mesmo a Amazônia fluvial com sua geografia líquida que evoca tanto o mundo social e de trabalho do seu povo (“Mama Guga”, “Estrelas da tarde”, “De volta à casa de praia”) quanto o encantamento de acontecimentos estranhos, que revelam a linha fantástica na escrita ficcional de Fernando Canto (“Anjo viajante”, “As mulheres-peixe do meu garimpo”).

E mesmo quando o rio não conduz a trama, ele deixa seu rastro aquático na memória da personagem-narradora de “O retrato azul” – o conto de pegada psicológica – ou ainda o movimento do rio em um circuito de redemoinho pode indicar a passagem (ou o retorno) de um tempo espiralado, como em “O quarto das recordações” – narrativa memorialista – e “Olhos do cacique/Olhos de Daniel”. Com exceção de “A convenção”, todos os contos de Mama Guga têm uma referência à agua e seus elementos simbólicos. Ressalve-se também o conto “A hora da danação”, em que pulsa a veia irônica e crítica do autor na revisão de velhas formas de se fazer política no Brasil e no próprio Estado do Amapá, em tempos de operação Lava-Jato e grandes escândalos políticos envolvendo empresas públicas e privadas na manutenção do poder a todo e qualquer custo, sempre pago pelo trabalhador brasileiro, claro.

O narrador negro de “A cidade encantada sob a pedra” – misto de antropólogo e historiador – relata as origens da cultura no Amapá. Na passagem “[…] atraídos por um estranho chamamento […]”, temos uma alegoria do elemento fantástico que funda não somente a Amazônia, mas sua literatura ficcional e fundamenta os contos desse livro. O conto revela o espaço de acontecimentos únicos e mitológicos, capazes de fazer enlouquecer tanto o narrador quanto os seus personagens, que muitas vezes entram em êxtase ou, no mínimo, em estado de delírio ao experimentarem a atualização dessas histórias fantásticas que giram em torno de uma visão dúbia sobre a Amazônia: Eldorado e/ou Inferno Verde. Mas sempre revelando a condição ficcional, não fictícia, da Amazônia, aportada na literatura que se constrói por mulheres e homens inseridos na história e na sociedade. Assim termina o conto em que seu narrador oferece uma explicação ao leitor sobre a origem da própria narrativa explicada pelos versos de Marabaixo: “Cantamos nossos ‘ladrões’ para contar nossa história e não deixar arrefecer nossa razão de viver neste mundo desafiador” (p. 16).

Mama Guga: contos da Amazônia deve ser leitura obrigatória para quem não conhece a cultura amapaense e amazônica, mas também para quem a conhece de raspão ou mesmo a fundo, para um exercício de (re)conhecimento do espaço e dos dramas da narrativa do autor.

CANTO, Fernando. Mama Guga: contos da Amazônia. Belém: Paka-Tatu, 2017.

Yurgel Caldas é professor de Literatura da Unifap e do Mestrado em Desenvolvimento Regional na mesma instituição.

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