Célio Simões (*)
Mais um julho passou, e com ele as viagens de fins de semana dos veranistas rumo às praias do litoral paraense como as de Salinas, Ajuruteua, Marudá e Algodoal, com os motoristas enfrentando estoicamente os 42km da BR 316 que separam Castanhal de Santa Maria do Pará ainda em inacreditável mão única, recheada de lombadas, buracos e araras, onde impera o trânsito lento das carretas, verdadeiro convite às ultrapassagens suicidas dos irresponsáveis.
Ainda em junho refiz esse perigoso trajeto e o que vi me deixou desanimado: a sonhada duplicação da pista está estagnada, longe de ser concluída. Fiz uma parada próximo ao ramal de Santo Antônio do Prata, na venda do mestre Otacílio, que faz um caldo de cana de doer na nuca de tão gelado e meu comentário foi inevitável:
- E a duplicação da pista meu amigo, sai ou não sai?...
Pra que eu havia de falar naquele assunto. Teso de raiva, o homenzinho despejou uma catadupa de objurgatórias e impropérios impublicáveis contra aquela situação escalafobética, xingando a mãe e os avoengos dos políticos que mandam, desmandam e posam de benfeitores do povo, mas não movem uma palha em Brasília para acabar com aquele descalabro:
- A estrada só está desse jeito por causa da ‘cachorrice’ desses políticos pilantras, bando de enganadores. Eles só vêm aqui pedir voto nas eleições e depois somem. Todo santo dia tem acidente grave nesse trecho, bote anos que isso está assim e não anda, disque por causa da briga do DENIT com a empresa de energia, para desviar os postes do linhão de Tucuruí. Papo furado!
- Acho que é também problema orçamentário, falta de grana ou ainda não deram a devida prioridade para o assunto, ponderei...
- Que seja, redarguiu o “Rei da Garapa”. Desculpa é que não falta. Ora são os 190 postes que devem ser mudados de lugar, ora são os igarapés que a estrada corta e não podem ser aterrados, ora são os rios maiores que precisam das pontes, enfim... Quer saber doutor? Acho mesmo é que devem ter enterrado caveira de burro no pedaço, porque a duplicação tá parecendo OBRA DE SANTA ENGRÁCIA!... Eita! Aquele caboclo inconformado, mesmo sem querer, me deu o prfecioso mote para esta crônica.
"Obra de Santa Engrácia" é um dito popular muito comum em Portugal (e também no Brasil) usado para descrever uma obra, tarefa ou projeto que demora uma eternidade para ser concluído, que parece nunca ter fim ou que é constantemente adiado, parecido exatamente com os benditos 42km de suplício rodoviário que enfrentamos quando vamos veranear em Salinas.
Essa expressão tem uma base histórica real e literal. Nasceu em Lisboa, devido à construção da Igreja de Santa Engrácia (que hoje é um Panteão Nacional), cuja construção começou no remoto ano de 1682, atrasou uma barbaridade por causa de problemas financeiros, desencontros arquitetônicos, mudanças políticas, constantes e demoradas interrupções, até finalmente ser inaugurada oficialmente em 1966, ano em que a Inglaterra conquistou a Copa do Mundo de futebol, tendo demorado nada menos que 284 anos para ficar pronta!
Com um histórico desses, não é de admirar que o nome da Santa tenha virado sinônimo de algo que começa mas não tem fim previsível. Mas afinal, quem foi Santa Engrácia e porque foi homenageada com um panteão em Portugal? Conhecida também como Santa Engrácia de Saragoça ela foi uma virgem e mártir cristã que nasceu por volta do ano de 285 dC em Braga, Portugal e viveu entre os séculos III e IV, sendo venerada tanto na Igreja Católica quanto na Igreja Ortodoxa.
Prometida em casamento a um nobre do sul da atual França, Engrácia viajava acompanhada de um tio (Lupércio), de uma criada e de 18 cavaleiros. E ao passar pela atual Saragoça, Espanha, deparou-se com as violentas perseguições aos cristãos promovidas pelo governador romano Públio Daciano, sob as ordens do imperador Diocleciano.
Inconformada com as perseguições, a destemida Engrácia se apresentou ao governador para defender os cristãos, declarando-se também cristã e recusando-se a renunciar à sua fé. Por tamanha petulância foi presa e torturada até a morte no ano 303 d.C. E seu martírio foi extremamente doloroso e cruel: Açoitada, foi amarrada e arrastada por cavalos, teve a carne lacerada com ganchos de ferro, os seios cortados e pregos cravados no corpo. O governador, sádico e vingativo, ordenou que a deixassem agonizar com as feridas expostas, vindo ela a falecer pouco tempo depois devido à gravidade dos ferimentos. Seu tio, a criada e os 16 cavaleiros também foram mortos, depois de martirizados.
A essa heroína da cristandade foi dedicado o dia 16 de abril e em Lisboa, a famosa Igreja de Santa Engrácia (Panteão Nacional) deu origem à expressão "obras de Santa Engrácia", para descrever algo que demora muito tempo para ser concluído, já que o monumento levou quase 300 anos para ser finalizado.
E chegou ao Brasil com os colonizadores, entrando definitivamente no costume popular de indicar algo que nunca acaba, entra ano sai ano continua na mesma, como aliás, algumas reformas de prédios ou ruas que existem por aqui mesmo, o mais emblemático deles, além da duplicação da estrada antes aludida, o famigerado BRT, que atravessou vários mandatos de prefeitos, alguns anabolizados com 8 anos de gestão, e só mais recentemente entrou em funcionamento, embora com notórias e inexplicáveis deficiências.
Mas desse drama da mobilidade urbana da capital paraense mestre Otacílio parece que nunca se apercebeu, porque no ramal de Santo Antônio do Prata ele vive desde menino e só raramente vem a Belém, isto para tratar com o médico do SUS que virou seu amigo a impertinente presbiacusia que o persegue, desde que chegou à terceira idade. Talvez por isso ele tenha o vezo de xingar e esbravejar com tom de voz tão elevado, achando que ninguém o está ouvindo direito...
(*) O autor é paraense, advogado pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana, membro da Confraria Brasileira de Letras com sede em Floresta (PR), sócio honorário da Academia de Letras e Artes da Polícia Militar do Estado do Pará, da Academia Vigiense de Letras e da Academia Santarena de Direito. Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (Santarém/PA), fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.