Jorge Ary Ferreira.
Recebi de diversos amigos o pedido para divulgar a história da letra da música do Bloco Xupa Osso 2026.
Antes de falar da letra, é fundamental destacar a autoria da melodia, pois chegamos a uma pessoa que merece todo o nosso respeito e admiração: um músico de altíssima qualidade, compositor autodidata e dono de uma obra belíssima, embora nem sempre lembrada como deveria. Trata-se de Jorge Cancão.
Solicitei a ele a criação de uma melodia de frevo que viesse a se tornar a música do Xupa Osso deste ano e, em poucos dias, recebi a gravação pronta, solada no cavaquinho. Hoje, esse frevo tornou-se a música oficial do nosso bloco.
Publicamente, tanto eu quanto o Bloco Xupa Osso agradecemos a Jorge Cancão e à sua família por colocarem seu talento à disposição dos amantes do Carnaval obidense. Que Deus lhe conceda uma vida longa, Cancão. Você faz a diferença em nossa cidade. Parabéns pelo talento que você é.
A letra foi a forma que encontramos de prestigiar o nosso brincante raiz: aquele que sai da sua comunidade, atravessa de bajara, vem nos ônibus da terra firme e chega para brincar o Carnaval Pauxis. É o mesmo brincante que, quando cai um toró, você procura turista com lanterna na Praça da Cultura e não encontra; ficam apenas os da “suraca”, que não abrem para a enchente do Rio Amazonas, vão fugir de uma chuvinha no Carnaval?
É também o povo que, durante o ano, frequenta torneios nas comunidades do nosso município e dos municípios vizinhos; os clubes que, semanalmente, visitam comunidades para "pagar visita", prestigiam promoções locais e circulam aos sábados com seus “coolers envelopados”, escudos no peito e camisas coloridas. É uma homenagem ao Londrina do Cuecé, Nacional do Rio da Ilha, Vitória do Paupixuna, Paysandu do Vivico, Vasquinho do Mondongo, Botafogo do Matá, Brioko e tantos outros que levam alegria nos finais de semana das comunidades rurais de Óbidos.
Trecho da letra
Vem, meu povo, brincar!
Sai do chão, Xupa Osso,
Sai que o dia raiou.
Vem pra rua, meu povo:
Cerveja, suor e amor.
Vem pra cá, ribeirinho,
Vem Paru, Mamiá,
Vem da Costa Fronteira,
Vem, meu povo, brincar.
Deixa o arreio em casa,
Deixa a tarrafa e o puçá,
Esquece as dores da vida,
Deixa a alegria te empurrar.
Vem que o bloco tá preparando um banho gostoso,
Quer te ver cheiroso.
Vem que a cobra te aguarda
Nas ruas de Óbidos e quer te laçar.
Vem meu Matá, Silêncio, Rio da Ilha, Poranga, Muratuba, Arapucu, Flexal, Recreio, Tabatinga, Cuecé, Buiuçu, Apolinário, Saubão, Mamiá, Cipoal.
Vem, traz tarubá, uxi, piquiá, copaíba e andiroba pra gente se curar.
Vem, povo do Xupa Osso, brincar nesta festa,
Que a vida é dura, mas tem que extravasar.
Em terra de Pauxis
Não existe vida dura.
E o resto, Vardelita?
O resto que se “expluda”!
Criamos e estruturamos essa letra com o objetivo de homenagear o brincante raiz e mostrar a maneira obidense de viver: valorizando nossas manifestações culturais, sobretudo as das comunidades, em vez dos “enlatados” da televisão brasileira. É o povo que passa os finais de semana brincando, se abraçando e vivendo a comunidade, e não preso à programação televisiva.
A letra começa lembrando que o Carnaval chegou e convidando todos a irem para a rua, deixando os afazeres de lado para dar passagem à alegria. O bloco já preparou uma grande festa, com banho de cheiro e o abraço da cobra — símbolo da nossa cultura, mas também com duplo sentido, representando os amores de Carnaval.
Convidamos nossas comunidades e sua cultura alimentar, com os frutos e amêndoas da floresta e elementos da nossa medicina popular. Que venham do jeito que são: extrovertidos, brincalhões, trabalhadores, que enfrentam a vida com garra e, nos finais de semana, extravasam para recarregar as energias.
Encerramos com o bordão da querida Valdelita Cruz, da Ilha do Carmo, filha do saudoso Antônio Cruz e de dona Ferdinanda, um casal honrado. Quem é obidense raiz certamente lembra do barco “B/M 17 Irmãos”, que, ao chegar no porto de Óbidos vindo da região do Paraná de Baixo, diziam que desembarcava mais filhos do que passageiros. Hoje, Valdelita viraliza nas redes sociais narrando seus causos, sempre provocada pelo amigo Adriel, mecânico marítimo dos bons, que encerra os vídeos perguntando:
“E o resto, Vardelita?”
(e ela como boa obidense que é, simplifica o espírito pauxi respondendo:)
“O resto que se expluda!"
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Vídeo da Música do Xupa Osso 2026
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