Por Jorge Ary Ferreira.
O Carnaval de 2000 foi marcado por diversos fatos, em um ano simbólico de mudança de século. O primeiro deles foi o chamado “bug do milênio”, quando muitos acreditavam que os computadores perderiam arquivos, diante das dúvidas que ainda existiam em relação ao mundo cibernético. Falava-se, inclusive, em promessas de que o mundo acabaria.
O certo é que Óbidos pulsava Carnaval. Nosso prefeito era José Mário de Souza, e o Carnapauxis se firmava como um dos eventos mais importantes da nossa cidade.
Um fato marcante daquele ano envolveu o bloco Xupa Osso e ficou especialmente na memória da velha guarda do Barreirão, que ainda chorava a recente partida do saudoso Nego Sabá. Em sua homenagem, resolveu-se brincar dentro do Xupa Osso com as cores do antigo e querido bloco: o laranja e o preto, que sempre estampavam nossas vestimentas, tanto carnavalescas quanto esportivas.
Diante desse cenário, no Domingo Gordo marcamos um churrasco na Praça de Sant’Ana, em frente à casa do querido amigo e baluarte do bloco Barreirão, Emanuel Aquino, nosso estimado Paúca. Ali se reuniu a velha turma: Neco, Duzinho, Vamico, Jorge, Stélio, Ary, Fernando Amaral, Pica-Pau, Raimundo Mendes, Manoelzinho Sarapó, Basília, Zé Raimundo Canto, Newton Benzaquen, Lelé, Chaves Miguel Chaves, Edinaldo Botto, além de outros que a memória já não alcança.
Fizemos um churrasco descontraído e delicioso, brindando o Domingo Gordo, assando a carne em uma churrasqueira improvisada, à sombra da velha castanheira.
Para nossa surpresa, Ary apareceu com uma musa que mudaria toda a história daquele Carnaval. Não sei em que paragens da cidade ele a encontrou, mas a nobre donzela surgiu já com seu novo nome de guerra: Sandra Mara Marilax, a querida, estimada e desejada Surucuá.
Ela havia desembarcado do navio obidense, oriunda da cidade de Manaus, para passar o Carnaval em sua terra natal, abrilhantando a festa com sua ilustre presença.
Imediatamente, resolvemos mandar confeccionar um estandarte do bloco Barreirão e providenciar uma vestimenta adequada para que nossa musa carregasse o símbolo da turma. Dois membros logo se dispuseram a assessorá-la como dançarinos, ocupando o posto no aparelho recém-chegado: Stélio Aquino e Fernando Amaral.
O churrasco seguia animado quando, por volta das 15h, presenciamos a chegada de um veículo à casa do amigo Emanuel Aquino. Percebemos que algo estranho estava acontecendo e, preocupados, fomos verificar.
Deparamo-nos com o querido amigo Júnior Paiva bastante aborrecido. Ele alegava que havia trazido a nobre donzela da capital baré para sair no Bloco das Virgens, mantendo-a “guardada a sete chaves”, para que fosse uma novidade e exclusividade do bloco. No entanto, ela estava ali, sendo admirada pelo Barreirão.
Júnior tentou proibir que ela saísse conosco, o que foi recusado pela dengosa foliã, já devidamente abastecida pela “água que passarinho não bebe”, preferindo ficar na companhia de seus velhos conhecidos. Bastante magoado, Júnior se retirou, deixando evidente seu descontentamento.
Seguimos com a brincadeira. O bloco desfilou pelas ruas da cidade de forma descontraída e alegre. O cortejo dos velhos marmanjos do Barreirão chamava atenção por onde passava, sempre com sua porta-estandarte no centro da roda, dançando de forma fogosa, cortejada e acariciada por antigos amantes.
Bebemos tudo o que pudemos até a chegada ao fobódromo. Já cansados, nos posicionamos próximos à barraca do Xupa Osso, onde permanecemos brincando até o final do Carnaval naquela noite.
Restamos ali eu, Raimundo Mendes, Pica-Pau, Manoelzinho Sarapó, Jorge Basília, Nilton Bacuré Benzaquen e a divina, com seu estandarte, tomando as últimas cervejas que ainda restavam na barraca, quando o Carnaval já se encerrava.
Foi nesse momento que percebemos a aproximação do amigo Júnior Paiva. Pedi a todos calma e que me deixassem conversar com ele. Ao se aproximar, mais uma vez reclamou da dançarina, e eu intervi com a seguinte pergunta:
— Mas, Júnior, o que está acontecendo? O Carnaval de Óbidos é de todos...
Ele respondeu:
— Não, mas ela sabia que vinha para desfilar no Bloco das Virgens. Ela não poderia ter feito isso. Afinal, ela é do nosso bairro e veio para ser o destaque do nosso bloco.
Então compreendi a situação. Pedi desculpas, pois não sabíamos desse acordo, e fiz outra pergunta:
— Me responda uma coisa, Júnior: você já se envolveu com a donzela? Já teve uma noite de amor com ela?
Ele riu, titubeou e respondeu:
— Não. Eu a conheci ainda criança. Ela é mais velha do que eu, não é da minha época.
Rindo, eu disse:
— Pois é, veja o nosso caso.
Virei-me para Pica-Pau:
— Pica-Pau, você já provou dessa boia?
Ele levantou a cabeça, deu um sorriso maroto para a donzela, que lhe retribuía com brilho nos olhos, e respondeu:
— Algumas vezes.
— E você, Jorge Basília?
Ele também levantou a cabeça e disse:
— Positivo. Metemos um chifre no Zé Pia… — e caiu na gargalhada, olhando para o amigo com ar de desculpas.
— Manoelzinho Sarapó?
— Só três vezes.
Quando me virei para Mundinho Mendes, ele já estava com a resposta pronta:
— Doutor — já me tratando como juiz do caso —, três testemunhas bastam. Não pergunte para a quarta e a quinta, eu e o Bacuré.
Caímos todos na gargalhada. Então concluí:
— Olha, Júnior, os verdadeiros “proprietários” dessa preciosidade estão aqui no Barreirão, e não no Bloco das Virgens.
Pedimos mais uma rodada de cerveja e brindamos à amizade que Óbidos nos proporciona, forjada nessa convivência forte e verdadeira que só a nossa cidade sabe criar.
E aqui fica a nossa homenagem a um grande conterrâneo, que teve a coragem de enfrentar uma sociedade preconceituosa, sendo o primeiro travesti de Óbidos a encarar a todos de frente.
Um grande abraço dos amigos do Barreirão ao querido Surucuá!

www.obidos.net.br - Fotos de Jorge Ary Ferreira