Jorge Ary Ferreira.
Gostaria, hoje, de me reportar a um assunto que nem sempre é visto com bons olhos por parte da sociedade, principalmente por aquela classe que, no bom sentido é claro, podemos chamar de “bestas da cara”. São pessoas que acreditam que a maneira de ser ou de falar de alguém representa, fielmente, o seu caráter, sua essência e sua forma de pensar. Muito pelo contrário. Para ilustrar isso, cito alguns exemplos.
De forma equivocada e até grosseira, já fui deselegante com uma pessoa que me procurou para perguntar como estava o andamento do palco em um dos Carnapauxis de anos atrás. Na ocasião, fiz uma ponderação infeliz sobre a maneira de falar utilizada em cima do palco. O Carnaval havia terminado em um domingo, e o responsável pelo conjunto musical comentava as atividades da semana usando expressões como: “nós toquemo dia tal em Alenquer”, “toquemo no Silêncio” e “hoje toquemo aqui no palco”.
Disse a ele que eu tinha certeza de que sabia conjugar corretamente os verbos, pois havia estudado no Colégio São José, e cheguei a exemplificar: “eu toquei, tu tocaste, ele tocou, nós tocamos, vós tocais, eles tocaram”. Questionei onde se encaixaria o “toquemo” e pedi que melhorasse a forma de falar, já que estava em um palco, diante de pessoas de fora. Hoje me arrependo profundamente dessa atitude. Poderia ter agido de maneira melhor, menos agressiva, e aqui deixo meu pedido de desculpas.
A título de reflexão, lembro que a Xuxa passou cerca de 30 anos na televisão dizendo “tu viu”, “tu foi”, “tu comeu”, e o Brasil inteiro assimilou isso sem reclamar; pelo contrário, achou bonito e até virou moda falar daquela forma.
O tempo passou e chegou mais um Carnaval de Óbidos. Há cerca de dez anos, o Bloco Xupa Osso decidiu valorizar, na letra de sua música, a nossa forma de falar, o nosso sotaque e, em certos momentos, até o nosso dialeto. Afinal, é difícil para uma pessoa de fora entender plenamente a maneira como nos expressamos, moldada pelo ambiente em que fomos criados.
Foi então que o grande Cancão, de forma brilhante, compôs o frevo Curumim Tinhoso, gravado em Manaus pelo nosso conterrâneo e grande cantor PA Chaves, em dueto com a renomada cantora Márcia Siqueira. A música foi utilizada pelo bloco naquele Carnaval e, como era de se esperar, surgiram críticas de alguns setores da sociedade à obra do Cancão.
Na época, argumentamos de diversas formas, e algo ficou muito marcado para mim. Passei a compreender melhor essa característica, que não é apenas nossa, mas natural de cada região do país e do mundo. A língua inglesa falada nos Estados Unidos, por exemplo, não tem a mesma pronúncia do inglês do Reino Unido.
Naquele período, morava em minha casa um amigo paulista, com aquele sotaque arrastado do interior de São Paulo, sempre usando expressões como “orra, meu”. Durante um almoço, comentávamos sobre a polêmica quando ele fez a seguinte observação: “Orra, meu, será que essas pessoas não escutam o que é cantado todo dia nesse palco?”. Ele se referia a uma música de um bloco local — que depois descobri ser do bloco mirim — em que o cantor pronunciava: “Ô seu Vardir, ô seu Vardir”.
Foi aí que me toquei e passei a prestar atenção. Realmente, era assim que se pronuncia no palco: “Seu Vardir”, expressando da forma mais fiel possível a nossa maneira de falar e de pronunciar. Essas palavras, que são características nossas, vêm do berço e só me orgulham por ter nascido aqui e sido criado ao lado de pessoas que falam assim comigo.
Nesse mesmo sentido, não posso deixar de citar o querido e honroso amigo João Pinto, companheiro de primeira qualidade e grande lutador das causas sindicais em Óbidos. Ele nos deixou de forma trágica e precoce, quando exercia o cargo de vereador, em um naufrágio de sua lancha.
Quando João Pinto foi eleito, acabou escolhido secretário da Mesa Diretora. Todos sabíamos de sua dificuldade para ler e escrever. Um outro vereador, eleito segundo secretário, chegou a procurá-lo, desconfiando que João tivesse sido escolhido para ser ridicularizado, e se ofereceu para fazer as leituras das atas. João, com muita firmeza, respondeu: “Quando me elegeram, sabiam da minha condição. Agora vão ter que me ouvir da maneira como eu sei ler, e vão ter que me respeitar”.
E assim foi. Com muita dignidade, João exerceu o cargo até o dia trágico de seu falecimento. Já lia com desenvoltura, dando uma grande lição de vida e fortalecendo ainda mais a minha forma de pensar.
Recentemente, vi publicações sobre a fala de um edil que utilizou o microfone da Câmara em uma sessão comum e, ao cumprimentar os colegas, travou em uma expressão que não lhe era familiar. Tentando cumprimentar os demais vereadores, acabou usando o termo “cuizar”. Era claro que queria dizer “cumprimentar”, mas, no momento, não encontrou a palavra adequada. E nada mais natural do que recorrer ao nosso “verbo cuizar”.
Ora, minha gente, quantas vezes já ouvimos dizer: “não sei o que aconteceu, deu uma coisa nele e ele caiu”? Assim é a nossa forma de se expressar.
Digo, então, a esse vereador: meu amigo, pouco acompanho o andamento da Câmara Municipal de Óbidos e desconheço seus projetos e seu trabalho. Porém, espero sinceramente que você esteja aí “cuizando” em favor do nosso povo. E, enquanto você estiver fazendo isso, eu estarei “cuizando” do seu lado, torcendo pelo seu sucesso.
Todos os que ocupam cargos públicos devem “cuizar” em favor do nosso povo, não apenas na Câmara, mas em todos os setores do município. Portanto, viva o verbo “cuizar” na cidade de Óbidos — principalmente quando usado no bom sentido. E, no amor, então, aí é demais já bom cuizar!