Garimpando saudades no álbum de Fotografias

Garimpando saudades no álbum de Fotografias

Jorge Ary Ferreira. 

Sempre que sobra um tempinho, recorremos a algum passatempo para preencher esse saudável vácuo entre os afazeres do dia a dia. As opções são muitas. Joguinhos no celular, por exemplo, estão bastante na moda, mas não fazem meu gênero. Prefiro notícias, músicas e redes sociais.

Hoje, não sei por que cargas-d’água, resolvi recorrer ao álbum de fotografias, atualmente bastante encorpado pelas imagens que vamos acumulando nessa loucura moderna dos celulares. E não é que me deparei com cada figura querida! Gente que já não está mais no nosso convívio, mas que continua muito presente, graças às imagens que perpetuaram seus rostos e à marca que deixaram na nossa memória afetiva.

Selecionei algumas dessas fotografias para compartilhar com os amigos. Afinal, recordar é também uma maneira de trazer de volta, ainda que por alguns instantes, aqueles que o tempo levou, mas que continuam morando dentro de nós.

A primeira é do meu amigo Bala, o inesquecível “Mundinho Pitiú”.

Convidado infalível dos meus aniversários, todos os anos ele comparecia, mas não participava da festa propriamente dita. Eu sempre insistia para que se sentasse, ficasse um pouco em casa e confraternizasse conosco, mas ele nunca aceitava.

Chegava com seu prato, onde era servida uma boia bem farta, e eu o entregava. Ele ficava me olhando, calado. Quando percebia que eu também não me manifestava, vinha a pergunta:

— Sim, e com o que eu empurro?

Eu pegava três cervejas, entregava-lhe e pronto! Bala seguia contente para sua rede, armada na Feira do Produtor Rural, onde costumava dormir com sua amada ReReca.

Foi justamente ao me deparar com sua imagem que me dei conta de que, nos últimos aniversários, já não tive o prazer de receber sua visita. É que Bala resolveu partir desta para a melhor... Eu, hein! Que história é essa de faltar justamente aos meus aniversários?

Fotos que se refere o Artigo!

A segunda fotografia é do Atlético Paroquial Vasco da Gama.

Um timaço, cheio de craques: Barrinho, Zé Roberto Pindoba, Zé Pitiú, Maniva, entre outros. Mas quem me chamou a atenção foi o grande cabeça de área “CÓ”, primo do Bala e também integrante daquela querida e estimada família carinhosamente conhecida como Pitiú.

Có jogou um período no Mariano e, segundo as “joias” que Zé Roberto Pindoba me contava, tinha uma arma secreta na destruição das jogadas adversárias: uma pequena bicuda por trás, bem nas partes baixas do oponente!

Naquela época, as cuecas modernas ainda não haviam chegado para proteger devidamente a retaguarda masculina. Os “BAGOS” ficavam desprotegidos e, portanto, vulneráveis ao golpe sutil do saudoso Có.

Imaginem a cena! Hoje, com o VAR, talvez ele não passasse do primeiro tempo. Naquele tempo, porém, pelo visto, o homem era um verdadeiro especialista em desarmar adversários... por métodos pouco convencionais!

Time do Atlético Paroquial Vasco da Gama.

Revirando um pouco mais meus arquivos fotográficos, encontrei meu pai, Ary Ferreira.

Na juventude, ele tocava violino, acompanhado de seus saudosos amigos Antônio Graci, no trombone, e Duquinha Fernandes, no saxofone.

Mas o que realmente me chamou a atenção nessa fotografia foi um detalhe que só o zoom do celular poderia revelar: lá está o RiRi, aparentando uns 13 anos, mais ou menos, fazendo a “ritimagem” em um afoxé.

E fica a pergunta que não quer calar: será que, naquela idade, ele já cantava? Ou será que a vocação musical começou mesmo foi no acompanhamento, preparando o terreno para o que viria depois?

Encontrei também o saudoso Ló.

Estivador muito conhecido, popular e querido, deixou sua marca na história de nossa gente. Dessas figuras que não precisavam de cerimônia nem de apresentação: bastava aparecer para que todos soubessem de quem se tratava.

E eis que surge o saudoso Flori, eterno Amo do Boi Pintadinho!

Sempre que me encontrava tomando uma gelada, Flori se sentava ao meu lado e logo preenchia a descontração da farra com suas histórias porretas. Quando a prosa esquentava, terminava cantando as melodias dos bois-bumbás da velha Óbidos.

Era um privilégio ouvi-lo. Flori não apenas contava histórias: ele nos transportava para um tempo em que a cultura popular se fazia presente nas ruas, nas rodas de conversa e na alma de nossa gente.

Outra imagem que me arrancou um sorriso foi a do formidável companheiro Astésio Siqueira.

Nessa fotografia, ele ostenta um sorriso lindo, daqueles que combinam perfeitamente com a lembrança que guardo de sua pessoa. Sempre me dedicou afeto e foi responsável por memoráveis gargalhadas, com seus cortes rápidos e sua língua afiadíssima.

Certa vez, depois de ser destratado por uma pessoa que se julgava mais estudada do que ele, Astésio soltou esta pérola:

“Tem tanta gente em Óbidos que estraga dinheiro mandando educar cavalo!”

Pronto! Estava dada a resposta. Astésio talvez não tivesse os diplomas do seu interlocutor, mas tinha uma inteligência afiada, uma presença de espírito admirável e aquela capacidade rara de responder à altura sem precisar consultar nenhum dicionário.

E, quando eu já estava quase terminando esta viagem pelas lembranças, eis que chega minha irmã do coração, Graci Chaves.

Ela leu os rabiscos que eu vinha fazendo e me presenteou com a última fotografia: justamente a dos saudosos CURÉ e NIQUINHA, casal de queridos que passou por este plano com muita honradez, deixando lembranças memoráveis e uma família de pessoas igualmente estimadas.

Em nome dos amigos Marcos e Marcelo, estendo a todos os familiares o carinho e a alegria de poder relembrar esses bons momentos.

E, ao olhar para Curé, não tem como não recordar meu melhor “ticador” de jaraqui! Ele tinha uma maneira muito particular de falar: economizava nas palavras como quem economiza farinha em tempo de carestia. Dizia o mínimo possível, e o interlocutor que tratasse de decifrar o que ele queria dizer.

Vejam só como era a conversa:

— Curé, se eu encontrar uns jaraquis, vou trazer para você cuidar pra mim. Pode ser?

— Quem sabe.

— Posso comprar, Curé?

— Será.

— Não te preocupa, que sai aquela gorjetinha bacana.

— Aiai...

E assim se comunicava o nosso Curé! Poucas palavras, muitas interrogações e uma capacidade extraordinária de deixar o outro tentando descobrir o que, afinal, ele estava querendo dizer.

Talvez fosse esse o segredo de sua comunicação: falar pouco, economizar explicações e deixar o resto por conta da imaginação de quem estivesse do outro lado.

E assim termino esta pequena viagem pelo meu álbum de fotografias.

Cada imagem trouxe de volta um rosto, uma história, uma gargalhada e um pedacinho da velha Óbidos que continua viva dentro de nós.

São amigos que partiram, mas que não se foram por inteiro. Permanecem nos causos que contamos, nas brincadeiras que repetimos, nas músicas que ainda cantarolamos e, principalmente, nessa saudade que, às vezes, chega disfarçada de sorriso.

Afinal, a fotografia congela um instante, mas a memória afetiva tem o poder de devolver-lhe o movimento, a voz e até o jeito de falar.

E que bom que é poder reencontrar essa gente toda sem sair de casa, bastando abrir um álbum e deixar o coração fazer o resto.

Porque, enquanto houver quem se lembre, ninguém terá partido por completo.

 

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