Bacaba, Fruto amazônico, é transformado em shampoo sólido e recebe reconhecimento nacional

Bacaba, Fruto amazônico, é transformado em shampoo sólido e recebe reconhecimento nacional

Estudo desenvolvido por acadêmicos do curso de Farmácia da UNAMA utiliza óleo de bacaba para criar cosmético sustentável 

A palmeira da bacaba (Oenocarpus bacaba) ergue-se como um dos símbolos da exuberância do Baixo Amazonas. Com seus troncos únicos e majestosos, que podem atingir até 20 metros de altura, a espécie oferece cachos generosos, carregados de frutos de coloração roxo-escura. Nas feiras de Santarém, o "vinho" da bacaba é tradição, mas, nas mãos dos acadêmicos do curso de Farmácia da UNAMA Santarém, a polpa e o óleo desse fruto ganharam um novo destino: a alta tecnologia cosmética.

O projeto desenvolveu uma formulação inédita de shampoo sólido, unindo o saber regional à inovação sustentável. A iniciativa rendeu à Instituição de Ensino Superior uma Menção Honrosa em nível nacional, reafirmando que a ciência produzida no interior do Pará possui fôlego para competir nos maiores palcos da educação brasileira.

“Essa conquista mostra que o trabalho feito aqui ultrapassa fronteiras. Essa vitória valoriza nossa identidade e reforça como é possível inovar respeitando os saberes da Amazônia”, destaca a orientadora e professora do curso de Farmácia da UNAMA Santarém, Dra. Carlena Sinara. 

Do cacho ao laboratório

A contextualização da pesquisa partiu da observação de que, apesar de ser um ativo abundante, a bacaba ainda era pouco explorada cientificamente no universo cosmético. Enquanto frutos como o açaí e o cupuaçu já possuem cadeias consolidadas, ela permanecia restrita ao uso alimentar. “Nos surpreendemos ao constatar pouquíssimos estudos. Nosso propósito foi criar um produto capaz de evidenciar o potencial tecnológico desse óleo, riquíssimo em propriedades hidratantes”, explica o pesquisador João Victor Silva. 

Diferente dos shampoos líquidos convencionais, os quais demandam grandes quantidades de água e embalagens plásticas, a escolha pelo formato sólido reforça o compromisso com a bioeconomia. A pesquisa detalha que a utilização do óleo extraído da polpa da bacaba atua na reposição da camada lipídica dos fios, proporcionando brilho e maciez sem a necessidade de componentes sintéticos agressivos, comuns na indústria tradicional. 

Para transformar o óleo em um produto estável e eficiente, os acadêmicos utilizaram o método Melt and Pour (derreter e verter). Embora o nome sugira simplicidade, o processo exige um rigoroso equilíbrio químico. A técnica consiste no aquecimento controlado de uma base glicerinada até o seu ponto de fusão. Em seguida, há a incorporação estratégica dos ativos lipofílicos, no caso, o óleo de bacaba, em temperaturas exatas para evitar a degradação dos antioxidantes naturais do fruto. “O maior desafio foi garantir que o shampoo apresentasse uma consistência sólida e firme, sem comprometer a eficácia da limpeza”, relata João Victor.

A "sustança" teórica do método reside na interação molecular. É preciso ajustar a tensão superficial para que o produto consiga emulsionar a sujeira dos cabelos e, simultaneamente, depositar as partículas de óleo da bacaba nos fios. Como não havia referências para este insumo específico, o grupo realizou dezenas de testes de pH e estabilidade até alcançar a fórmula premiada. 

Sustentabilidade e protagonismo acadêmico

Ver a ciência amazônica ser premiada na 26ª edição do Top Educacional traz uma sensação de dever cumprido. “Isso evidencia o enorme potencial da nossa região para o desenvolvimento de produtos naturais. Ter um trabalho focado na sustentabilidade premiado reforça a importância da pesquisa regional”, afirma a pesquisadora Raina Marcele Santos.

O grupo já planeja o futuro: buscar a patente da formulação e expandir a linha para condicionadores e máscaras capilares sólidas. Para Carlena, o legado vai além do troféu. “Formar profissionais é formar pessoas conscientes. O shampoo sólido nasceu exatamente desse ambiente de incentivo e prática científica”, aponta a docente. Ela ainda reforça que a Instituição de Ensino Superior atua como uma ponte entre o recurso natural da floresta e a prateleira do consumidor, transformando a riqueza de Santarém em solução sustentável.

A mensagem deixada pelos estudantes aos novos discentes da UNAMA é de persistência. “Acreditem no potencial da própria região. Produzir conhecimento a partir de ativos amazônicos e perceber que somos capazes de consolidar um estudo de excelência é a experiência mais gratificante da formação acadêmica”, conclui João Victor.

Por Henrique Britto

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